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Ei gente!
Além da pintura e do design, estou arriscando criar em outras áreas também!
No Soundcloud tem algumas composições minhas:

Mandalas

Estou aprendendo a fazer mandalas de lã! Em breve estarão a venda numa loja de Belo Horizonte.

Minha história de outra vida

Em setembro de 2016, eu morava sozinha em São João Del Rei e costumava às vezes visitar minha mãe que morava na cidade vizinha, São Vicente de Minas. Um domingo à tarde, na viagem de volta um caminhão empurrou meu Fusca para fora da estrada e me jogou num brejo.

Não lembro como foi o acidente. A primeira coisa que lembro era que eu tentei ficar em pé depois de mudar pro banco de passageiro pra sair do fusca, já que o lado do motorista estava afundando.

Senti uma dor imensa então sentei no chão. Meus olhos e nariz sangravam, então minha vista estava toda embaçada. Tentei me esticar e procurar o celular no chão do Fusca e não consegui, então me arrastei no brejo pra um lugar seco e com menos mato e fiquei deitada de frente pra estrada gritando socorro, mas a estrada ficava muito alta e ninguém me via lá embaixo. Fiquei inconsciente ou peguei no sono. Quando estava anoitecendo, umas 3 horas depois do acidente, acordei com pessoas me acordando e luzes de carros parados na estrada. Um ônibus de viagem conseguiu me enxergar lá embaixo e isso que me salvou. A água do brejo tinha subido e eu estava só com a cabeça de fora da água e com hipotermia. Algum passageiro do ônibus me cobriu com um cobertor e avisaram que estava vindo o Samu, mas toda hora eu acordava e dormia de novo e ficavam me perguntando qual o telefone do meu parente mais próximo.

Fiquei uns dias sendo medicada com morfina no hospital e acordei com a pior dor da minha vida. Por sorte, eu só tinha quebrado o fêmur direito e eu acreditava que só precisaria aguentar aquilo por alguns dias, ser operada e tudo ia ficar bem. Infelizmente, o hospital de São João Del Rei era péssimo, com condições precárias e o ortopedista que me operou incompetente a ponto de não olhar direito o raio X e encomendar uma haste errada. Após a cirurgia eu sentia uma dor terrível no quadril e minha perna ficou rodada pro lado errado. Uma semana depois, ele apareceu no hospital e me avisou que eu teria que ser operada novamente.

Na segunda cirurgia, colocaram uma placa infectada e saía muita secreção da minha perna. Fiquei mais 20 dias tomando antibiótico e lutando contra uma febre que não passava, então fui transferida para fazer a terceira cirurgia no hospital de Barbacena. Antes da segunda cirurgia, após 30 fracassadas tentativas de encontrar minha veia para receber transfusão de sangue, foi feita uma dissecção no meu braço. Ao chegar no outro hospital observaram sinal de infecção e quando tiraram o cateter ele estava inteiro com pus sem nenhuma gota de sangue e foi só tirar que minha febre passou, mas minha perna continuava problemática.

Na terceira cirurgia fui diagnosticada com osteomielite crônica e colocaram um fixador externo, mas deixaram um osso aproximadamente de 20 centímetros desvitalizado que a ponta ficava rasgando meu músculo por dentro. Foram os piores meses da minha vida e a dor era imensa. Por necessidade, mudei para uma cidade em São Paulo e consegui atendimento no Hospital das Clínicas.

Em fevereiro, deste ano, fui operada novamente onde corrigiram o problema mais grave e em maio tive a quinta cirurgia onde pegaram medula óssea e osso do fêmur esquerdo e fizeram enxerto, precisando colocar haste nas duas pernas. Depois de 8 meses sentindo uma dor que nunca passava, estou me recuperando e tomando antibiótico para combater a infecção pelos próximos meses. Como o fêmur direito ficou 10 centímetros menor que a outra perna, ainda precisarei colocar gaiola para crescimento do osso, mas finalmente estou no processo da cura para um dia voltar a andar novamente.

Fenestra Estúdio – Projetos de interiores e design gráfico

P’ra quem ainda não sabe, tenho uma empresa chamada Fenestra Estúdio com foco em design de ambientes e design gráfico.

Na área de design de ambientes, atuamos em projetos residenciais e comerciais: decoração, paisagismo, cenografia, design de móveis, iluminação e levantamento arquitetônico. Em design gráfico, trabalhamos com identidade visual, criação de logotipo, webdesign e ilustração.

http://www.fenestraestudio.com.br

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Cadeira de rodas e acessibilidade

Nunca imaginei que um dia eu viveria na prática o que é ser cadeirante. Quando estudei na faculdade, eu aplicava o que está nas normas ABNT de forma até inocente e imaginava que estava fazendo um projeto correto… Podia estar correto, mas não estava pensado. A pessoa só compreende como é a vida na cadeira de rodas quando vivencia isso nem que seja por um breve período de tempo.

Falando um pouco de mim: Sofri um acidente de carro onde quebrei só o fêmur, mas devido a gravidade do meu acidente e erros médicos teve que ser retirado 20cm do meu osso, estou com um fixador externo que vai do meu quadril até o joelho e também em tratamento contra osteomielite crônica. Mesmo tendo mobilidade de uma perna já vivo dificuldades e dores que nunca imaginei antes… Vivo impressionada com a persistência humana: como alguém paralítico ou sem as duas pernas faz?

Gostaria de relatar como tem sido essa nova experiência:

– Você se torna dependente de outra pessoa.

Mesmo com uma casa toda acessível, muitas vezes você tem medo e dificuldade pra morar sozinho. Você vai precisar contar pelo menos com uma diarista se não tiver quem arrume as coisas pra você… É possível passar pano nos móveis baixo e até varrer o chão nos ambientes maiores, mas a maioria dos cantinhos não cabe sua cadeira e muito menos um cadeirante com uma vassoura. Tarefas como lavar roupa e pendurá-la é bem mais complicado.

– Você faz as coisas mais devagar.

Quando você anda e esquece de pegar algo na geladeira, por exemplo, rapidamente você volta e pega o que deixou pra trás. Na cadeira de rodas isso significa girar a cadeira, se empurrar com os braços, equilibrar o que você vai carregar no colo e se empurrar de novo.

– Cadeira de rodas significa comprometer as duas mãos.

É preciso das duas mãos empurrando a cadeira pra ir pra frente e não girar pros lados, então quando você está na cozinha fazendo uma massa de pão ou cortando legumes na mesa e precisa pegar uma vasilha longe, você tem que ter uma pia perto pra lavar suas mãos e não sujar os alimentos nem sua cadeira.

– Empurrar cadeira de rodas cansa muito.

Em casa, é bom ter tudo importante bem perto. Em lugares públicos, uma vaga de estacionamento mais perto da portaria e um banheiro na entrada faz toda a diferença.

– Algumas pessoas não irão compreender.

Seja na fila do supermercado, do banco 24hs ou da lanchonete, você exigir seu direito a ser preferencial nem sempre é bem visto por quem está na fila. Já me olharam muito de cara feia e outros fingiram que não me viram pra passar na frente. A verdade é que ficar muito tempo na cadeira de rodas causa dores nas pernas e coluna, sem falar que se você estiver apertado pra ir no banheiro vai demorar muito mais tempo pra chegar até ele. Em casa, é comum quem vive com você mudar as coisas de lugar e colocar em um lugar não acessível pra você sem até perceber.

– Pegar coisas no chão se torna uma tarefa árdua.

Se você usa uma cadeira de rodas que não tem os braços removíveis ou sente muitas dores ao se mexer, muitas vezes você não consegue pegar sozinho aquele papel ou remédio que cai no chão.

– Pegar coisas no alto ou longe te deixa exausto.

Fazer tarefas comuns como cozinhar num fogão normal ou usar um bebedouro sem espaço pra enfiar as pernas fica bem cansativo. Você precisa estacionar sua cadeira e esticar seu corpo para o lado. Enxergar dentro da panela e usar as bocas de trás do fogão também é difícil. De manhã, pra arrumar a cama de casal, você desenvolve seu próprio método. Eu prefiro ir esticando o edredom e ir me movendo aos poucos na cama.

– Armários mal planejados e fundo de gavetas largas se tornam inutilizáveis.

No meu caso que tenho uma perna em perfeitas condições, eu estou sempre pegando coisas ou abrindo gavetas baixas com o pé, mas um paraplégico não utilizaria esse espaço. Armários com porta de abrir atrapalham muito a utilização também, afinal você precisa encaixar sua cadeira de lado entre essas portas abertas pra conseguir alcançar o que está dentro do armário.

– Você vai deixar de ir em alguns lugares.

Quando você anda e é independente, você pode resolver ir até a padaria ou dar uma volta só pra andar. Na cadeira de rodas não é assim. Depois que você começa a usar cadeira de rodas e as pessoas te chamam pra fazer algo, sua primeira pergunta é “- Lá tem degrau?”. Antes de chegar no local você já passa pelos obstáculos do passeio quebrado, rua sem rampa, atravessar a rua no sinal… O segundo problema é ter aquela vontade de ir ao banheiro e não ter banheiro, principalmente quando se é mulher.

(*** É como se você fosse criança de novo: as pessoas ficam te lembrando de ir no banheiro antes de sair de casa! Pra ajudar, minha sogra improvisou um tipo de funil e uma garrafa de plástico que sempre ando com ela na bolsa se tiver uma emergência, mas muitas vezes dá um pouco errado e você começa a entender por que os personagens no The Sims choram. kkk)

– Banheiro público significa encostar em tudo.

No meu caso que ainda uso uma perna é mais fácil: travo minha cadeira do lado do vaso, levanto meu corpo com um pé no chão segurando na barra, me viro e tento ficar meio agachada pra não encostar no vaso, afinal se não tem álcool e papel toalha no banheiro você não vai conseguir limpar bem pra sentar. Já um cadeirante paralítico precisa sentar de qualquer jeito.

O maior problema que encontrei até hoje foi num banheiro “acessível” que instalaram apenas uma barra pequena atrás do vaso. Sentada eu não conseguia alcançá-la esticando o braço, muito menos sustentar meu corpo pra levantar. Os melhores banheiros são aqueles que o vaso está no canto da parede com uma barra grande atrás e na lateral.

Já tive problema também pra usar um banheiro acessível dentro do banheiro comum: a porta da cabine acessível só abria se alguém puxasse lá no alto já que não tinha maçaneta. Tive que pedir ajuda no supermercado.

– Tomar banho significa se mover da cadeira de rodas pra cadeira de banho.

No banheiro tudo fica mais arriscado: um piso molhado, aquela pia de louça que você não pode se apoiar ou aquele tapete de chão que colocaram inocentemente pra secar o banheiro. É preciso lembrar que a cadeira de banho não tem como você se empurrar sozinho como a cadeira de rodas, então pra tomar banho sozinho você precisa se mover entre as duas cadeiras dentro do box.

– Você vai ficar irritado com sua cadeira.

Ficar sentado o tempo todo é bem incomodo, ainda mais no calor que você sente que seu corpo não está sendo ventilado. A textura do assento e a posição das suas pernas e coluna na cadeira de rodas começam a te incomodar e você quer sentar no sofá, poltrona, cadeira, etc.

– Vagas no estacionamento reservadas para cadeirante não são iguais.

É bem comum nos estacionamentos você ver apenas um desenho pintado no chão na vaga para deficientes, mas a vaga acessível é diferente e precisa de espaço na lateral pra cadeira de rodas. Quando vamos estacionar em algum lugar que não tem acessibilidade, nós precisamos parar o carro num lugar que dê espaço de abrir a porta toda e encaixar minha cadeira pra eu sair, então só depois colocar o carro no estacionamento. Se o cadeirante for o motorista, ele vai ter que contar com a sorte.

– Todo degrauzinho é barreira.

Você quer tomar sol no jardim e lá está o degrau inocente que você nunca tinha percebido que existia até agora. Você tem que muitas vezes ficar de costas pra aproveitar a roda maior de trás e se empurrar. Ações como descer da calçada ou visitar um lugar com um degrau sequer significa que alguém vai ter que inclinar sua cadeira pra tirar as rodinhas do chão e te descer do lugar. Dá um frio na barriga.

– Você não vai usar mais as roupas de sempre.

Tem roupa que se torna tão difícil de vestir que você simplesmente desiste dela. No meu caso, com fixador externo, você fica feliz por ter vestidos largos no armário.

– A mesinha lateral da cama pode virar o seu “kit de sobrevivência”.

Se ajeitar na cama e esquecer as coisas pra trás é bem desanimador, então você precisa de uma mesinha ou cabeceira na cama pra colocar seus livros, papel higiênico, garrafinha de água, toalhinha, comadre, etc.

– Você vai perder coisas atrás de você.

Parece estranho, mas acontece.